Precisamos falar sobre o ouro: o que o ativo mais seguro de todos os tempos pode fazer pela sua carteira?

Durante minha atuação no mercado de investimentos internacionais, presenciei ciclos de alta, quedas abruptas e inúmeras transformações econômicas.

Mas a verdade é que, embora muitos ativos tragam perspectivas de crescimento, poucos oferecem a solidez e a proteção de um metal milenar como o ouro.

Neste artigo, você vai entender por que acredito que o ouro não deve ser encarado apenas como uma aposta arrojada, mas sim como uma reserva de valor: um escudo em portfólios que buscam longevidade e resistência. 

Ou você acha que é por acaso que o ouro disparou nos últimos meses, acumulando alta superior a 50% nos últimos 12 meses?

Em meio a conflitos geopolíticos, inflação crescente e políticas monetárias expansionistas, o ouro se mantém resiliente — e espero que esta análise ajude a compreender melhor como ele pode proteger seu patrimônio na prática.

Neste artigo, você vai entender por que investir em ouro e como ele pode ajudar o seu portfólio.

Mas, para começar, precisamos analisar o papel histórico do metal.

O papel histórico do ouro

O ouro já foi o pilar do sistema monetário internacional, principalmente durante o Padrão Ouro, que garantia lastro às moedas nacionais. 

Mesmo depois de 1971, quando o dólar deixou de ser lastreado em ouro, o metal permaneceu relevante. 

Por quê?

Basicamente, porque o fato de ser escasso, ter valor intrínseco e ampla aceitação internacional mantêm o seu valor.

Isso se provou verdade inclusive durante as crises econômicas mais marcantes das últimas décadas — dos choques do petróleo à crise de 2008, passando pela pandemia de COVID-19.

Fato é que, atualmente, grandes investidores e instituições de enorme reputação enxergam o ouro como um “porto seguro” que não se desvaloriza conforme as moedas fiduciárias perdem poder de compra. 

Em períodos de inflação ou instabilidade política, a atratividade do ouro tende a crescer, justamente por sua capacidade de preservar o valor real no longo prazo.

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O crescente acúmulo de ouro pelos bancos centrais

Nos últimos anos, tenho observado um movimento crescente de compra de ouro por bancos centrais ao redor do mundo. 

Relatórios do World Gold Council e do FMI (IMF), por exemplo, mostram que países como China, Turquia, Índia e Rússia aumentaram suas reservas em ritmo acelerado. 

Há diversos motivos para isso:

Desdolarização parcial: busca por reduzir a exposição ao dólar em meio a tensões geopolíticas

Proteção contra sanções e crises: o ouro possibilita certa independência em relação ao sistema bancário ocidental

Desconfiança em relação à moeda fiat: com a expansão monetária em alta, muitos governos preferem ter parte de seus ativos em um metal cujo valor não pode ser simplesmente “impresso”.

No gráfico, podemos ver os bancos centrais com maiores fluxos de compra e venda de ouro em 2023:

Entendo que esse comportamento tende a continuar, pois diversos relatórios de bancos centrais sugerem intenção de manter estratégias robustas de hedge cambial.

Dessa forma, o ouro aparece como uma salvaguarda em potencial contra desequilíbrios futuros, garantindo uma reserva de valor.


Tensões geopolíticas no radar

Ao longo das décadas, fica claro que conflitos regionais e mudanças de governo também contribuem para a alta demanda por ouro. 

Mesmo episódios de cessar-fogo ou tentativas de conciliação, como no Oriente Médio, não foram suficientes para conter a tendência de alta do metal desde 2019. 

A entrada de Donald Trump, marcada por tensões comerciais e possíveis novas tarifas, reforçou ainda mais o receio do mercado, levando muitos investidores a migrarem para ativos de proteção.

Um destaque recente foi a notícia de risco de escassez de ouro em Londres (conforme matéria da BullionVault), gerada pelo aumento súbito de compra do metal físico.

Embora existam tentativas de manter a estabilidade política e comercial, o ouro segue beneficiado pelo cenário de incertezas e pela percepção de que crises geopolíticas podem eclodir a qualquer momento.

No gráfico, podemos notar a evolução do ouro durante guerras e conflitos:

Correlação com dólar e juros reais

Tradicionalmente, o ouro apresenta correlação inversa com o Dollar Index (DXY), pois um dólar forte costuma pressionar o metal para baixo. 

Porém, desde 2019, o ouro continua em alta, mesmo com o dólar ainda forte. 

Uma das explicações possíveis é a antecipação de desequilíbrios fiscais de longo prazo nos Estados Unidos e o receio de que a moeda americana possa enfrentar dificuldades em cenários extremos.

Além disso, taxas de juros mais altas nem sempre derrubam o ouro: caso a inflação esteja elevada, a taxa real (juros nominal menos a inflação) pode permanecer baixa ou até negativa, o que favorece a atratividade do ouro como reserva de valor. 

Segundo o Banco de Compensações Internacionais (BIS), há indícios de que a inflação pode manter-se acima do desejado em diversos países, o que sustenta a demanda pelo ouro.

Ouro nos portfólios: defesa, não especulação

Do meu ponto de vista como assessor, o ouro se encaixa melhor em uma estratégia de preservação, do que na de especulação:

  • Proteção e diversificação: incluir de 5% a 15% do portfólio em ouro pode reduzir a volatilidade geral, compensando eventuais perdas de outros ativos durante crises
  • Horizonte de longo prazo: quem visa sucessão patrimonial ou proteção contra grandes choques no sistema financeiro vê no ouro uma blindagem relativamente estáve.
  • Contribuição ao índice de sharpe: estudos de grandes gestoras, como a Vanguard, mostram que adicionar ouro ao portfólio tende a melhorar a relação risco-retorno no longo prazo

Aqui, é importante lembrar que o ouro não paga juros, nem dividendos. 

Seu principal “ganho” está na proteção e na possibilidade de valorização em cenários adversos, fazendo dele um pilar de segurança.

Outro fator pouco discutido é a demanda cultural

Em países como Índia e China, o ouro é tradicionalmente procurado em cerimônias e festivais, gerando picos de consumo e sazonalidade nos preços. 

Para saber mais, recomendo sites como a China Gold Association, que mostra dados sobre esses padrões de compra, que podem influenciar a cotação do metal em períodos específicos do ano.

Como investir em ouro na prática?

Ao conversar com investidores, percebo a dúvida frequente: “mas como eu, pessoa física, acesso o ouro de forma prática?” 

Abaixo, listo opções que considero as mais descomplicadas e acessíveis:

1. ETFs de Ouro

    Pessoalmente, gosto da facilidade e liquidez dos Exchange-Traded Funds (ETFs) lastreados em ouro.

    Se você tem uma conta global na XP, por exemplo, pode adquirir ETFs como o SPDR Gold Shares (GLD) ou o iShares Gold Trust (IAU).

    É uma maneira muito simples de investir no metal sem precisar armazenar barras físicas ou lidar com custos de transporte e seguro.

    2. Contratos Futuros e Opções

      Os contratos futuros são mais indicados para quem tem maior conhecimento de mercado e deseja operar hedge ou especular no curto prazo. 

      Porém, demandam atenção e experiência, pois envolvem riscos mais elevados.

      Para investidores de perfil “médio” ou que buscam simplificar, recomendo fortemente a opção via ETFs

      Dessa forma, você tem exposição ao metal com baixo custo, boa liquidez e sem complicações logísticas. 

      A mensagem principal que quero passar é: mesmo que o ouro não renda juros ou dividendos, ele cumpre o papel de “seguro” — um ativo essencial em cenários de alta volatilidade e riscos inflacionários.

      Meu parecer final sobre o ouro

      Em toda minha carreira, nada me parece tão sólido quanto o ouro em termos de proteção de patrimônio

      Ele não é a “estrela” dos grandes retornos, mas sim o porto seguro para momentos em que mercados desabam e as moedas sofrem com inflação e crises fiscais.

      Por isso, se você procura longevidade e estabilidade, considere reservar uma parcela do seu portfólio para o ouro

      Ele já atravessou séculos de experimentos monetários e geopolíticos sem perder sua relevância, e é provável que continue cumprindo esse papel de refúgio em um mundo cada vez mais incerto.

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