Utilizado no Brasil desde 1999, o câmbio flutuante é um regime cambial no qual o valor do câmbio flutua livremente, de acordo com a oferta e a demanda pela moeda na economia.
Na prática, esse regime permite que o valor do dólar, por exemplo, oscile todos os dias.
Um dos três pilares do tripé macroeconômico, o câmbio flutuante teve um papel central para garantir a estabilidade da economia brasileira no início dos anos 2000, mas nem sempre foi um consenso.
Neste artigo, você vai conhecer a história do câmbio flutuante no Brasil e o impacto desse regime de câmbio nos seus investimentos.
O que é câmbio flutuante?
O câmbio flutuante é o regime cambial utilizado no Brasil desde 1999, no qual o valor da moeda do país varia livremente, de acordo com a oferta e a demanda que ela possui no mercado de câmbio.
Dizer que no Brasil temos câmbio flutuante significa, basicamente, que o valor do real (R$) está diretamente atrelado à quantidade de pessoas querendo comprar e vender a moeda.
Caso exista uma grande força compradora, com muitas pessoas querendo adquirir reais, o valor da nossa moeda tenderá a subir em relação às outras. Ao contrário, em casos de grande pessimismo em relação ao Brasil, as pessoas podem trocar o real por dólares ou euros, derrubando o valor dele.
Também é importante mencionar que, apesar de termos câmbio flutuante, isso não significa que não exista nenhum tipo de controle das nossas instituições sobre a moeda.
O Banco Central não estabelece um valor fixo para o câmbio, mas tem a responsabilidade de intervir ocasionalmente quando for necessário, comprando ou vendendo moeda estrangeira para evitar oscilações extremas que possam comprometer o mercado cambial no Brasil.
Até por isso, alguns economistas chamam o câmbio brasileiro de “flutuante sujo”, por não ser totalmente livre.
Esse mecanismo, inclusive, já foi utilizado em 2025, quando o BC interveio vendendo dólares quando o valor da moeda norte-americana ultrapassava os R$ 6,00.
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Qual a diferença entre câmbio flutuante e câmbio fixo?
A principal alternativa ao câmbio flutuante é o câmbio fixo.
No sistema de câmbio fixo, o valor da moeda não se ajusta livremente com base nas leis da oferta e da demanda, como no câmbio flutuante. Nesse caso, o valor da moeda é estabelecido pelo governo, tendo como referência uma moeda estrangeira – normalmente o dólar.
A intenção de fixar a taxa de câmbio é minimizar variações e manter a moeda pareada com a de algum país de economia forte.
Porém, isso custa caro.
Para o câmbio fixo se manter realmente estável, o banco central do país em questão precisa intervir frequentemente no mercado, comprando e vendendo reservas de moeda estrangeira de forma constante para manter a taxa de câmbio no nível desejado.
Isso tende a gerar altos custos de transação cambial, que podem dificultar a saúde das contas públicas, além de dar origem a uma taxa de câmbio artificial.
É por isso que poucos países utilizam esse sistema hoje em dia. Alguns exemplos são duas pequenas nações do Oriente Médio – Bahrein e Omã – que possuem seu câmbio atrelado ao dólar.
Qual o papel do câmbio flutuante no tripé macroeconômico?
O câmbio flutuante é um dos três pilares do tripé macroeconômico, o modelo de política econômica que foi adotado no Brasil em 1999, no começo do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, e que vigora até hoje.
O objetivo da criação do tripé macroeconômico era garantir a estabilidade econômica do país durante um momento extremamente complexo de hiperinflação e crises externas, e promover um ambiente previsível e seguro para investimentos e negócios, possibilitando crescimento no longo prazo.
Ele consiste em três pilares, que norteiam as políticas monetária, fiscal e cambial do nosso país.
O primeiro pilar, referente à política monetária, são as metas de inflação.
Ele estabelece que o Conselho Monetário Nacional (CMN) deve determinar uma “banda” na qual a inflação anual deve ficar, e cabe ao Banco Central utilizar medidas monetárias como taxa de juros, redesconto bancário, compulsório e outros para manter essa inflação dentro da meta.
O segundo pilar, relativo à política fiscal, é o das metas fiscais. Essas metas obrigam o governo a controlar a dívida pública, gastando menos do que arrecada para manter as contas públicas equilibradas.
E, finalmente, o terceiro pilar, de política cambial, é o câmbio flutuante.
Mas como o câmbio flutuante contribui para o tripé?
Primeiramente, o câmbio flutuante amortece choques monetários externos. Se há um acontecimento fora do Brasil – como, por exemplo, aumento dos juros nos EUA -, isso leva a uma saída de capital do Brasil e desvalorização do real.
Porém, como o nosso câmbio é flutuante, isso torna os produtos brasileiros mais baratos no exterior, beneficiando nossas exportações e compensando a perda de investimentos estrangeiros.
Ao contrário, se há entrada de capital, o real se valoriza, tornando as importações mais baratas, o que ajuda a conter a inflação.
Além disso, se tivéssemos câmbio fixo, o governo teria que gastar reservas internacionais o tempo todo para manter o valor da moeda, o que geraria instabilidade fiscal.
Com o câmbio flutuante, o governo não precisa gastar grandes quantidades de reservas internacionais para segurar o câmbio, permitindo que esses recursos sejam usados para manter as contas públicas sob controle e o superávit primário.
Como era o regime de câmbio antes do tripé macroeconômico?
Antes da adoção do tripé macroeconômico em 1999, o Brasil utilizava um regime de câmbio fixo, mas de forma um pouco mais flexível do que outros países.
O valor do real não ficava atrelado a uma quantidade específica de dólares. Em vez disso, o Banco Central estabelecia um intervalo (banda) dentro do qual o valor do dólar poderia oscilar em relação ao do real.
Se o câmbio começasse a sair dessa faixa, o Banco Central intervinha comprando ou vendendo dólares para manter o real dentro do limite estipulado.
Por isso, algumas pessoas afirmam que o regime cambial do Brasil na época poderia ser chamado de algo como “semi-fixo”.
A ideia dessa política cambial era estabilizar a inflação, que era, de longe, o maior problema no Brasil antes do Plano Real.
Porém, para manter o real dentro da faixa estipulada, o governo precisava sempre gastar grandes quantidades de reservas internacionais, e, com a fuga de capitais que o Brasil sofreu após as crises Asiática em 1997 e da Rússia em 1998, tornou-se insustentável a manutenção do câmbio fixo.
Armínio Fraga, então presidente do BC, comenta mais sobre essa necessidade de mudança em sua entrevista ao Roda Viva em 1999:
“Antes o Governo dizia para a taxa de câmbio: ‘Você toma conta da inflação’ e dizia para a taxa de juros: ‘Você toma conta do balanço de pagamentos’, que é um regime de taxa de câmbio fixa. Hoje nós estamos escalando o time de forma diferente. Nós estamos dizendo para taxa de câmbio: ‘você toma conta do balanço de pagamentos’ e para taxa de juros: ‘você toma conta da inflação’”
No gráfico abaixo, fica claro o momento no qual o câmbio passou a ser flutuante em 1999, com um grande pulo após anos de uma escalada lenta e estável:

Fonte: Poder360
Existe risco do câmbio flutuante ser revogado?
Com dois dos pilares do tripé macroeconômico sendo alvos de comentários do Executivo (política monetária e política fiscal), há quem tema que o câmbio flutuante seja o próximo a ser questionado.
Em um momento de escalada do dólar, em 2024, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou a dizer que havia um “jogo de interesse especulativo contra o real”. Segundo ele:
“Obviamente que me preocupa essa subida do dólar. É uma especulação. Há um jogo de interesse especulativo contra o real nesse país. Não é normal o que está acontecendo. Temos que fazer alguma coisa”
“Alguma coisa” mencionada pelo presidente poderiam ser intervenções do Banco Central no mercado, para controle cambial.
Porém, Gabriel Galípolo, presidente do Bacen afirmou publicamente que “o câmbio é flutuante, e o Banco Central não vai segurar dólar ‘no peito’”.
Em janeiro deste ano, no entanto, houve dois leilões de dólares visando controlar o valor da moeda norte-americana.
Embora não seja provável que tenhamos um abandono do câmbio flutuante em breve, vale a pena ficar atento a intervenções mais constantes do Banco Central para entender a dinâmica atual.
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Como o câmbio flutuante afeta os investimentos?
O câmbio flutuante impacta diretamente os investimentos, tanto no Brasil quanto no exterior.
A cotação da nossa moeda variar conforme a oferta e demanda gera uma volatilidade que afeta ativos financeiros, empresas e o retorno dos investimentos internacionais.
No mercado de ações, por exemplo, empresas exportadoras como Vale, Petrobras, Suzano e JBS se beneficiam da desvalorização do real, porque suas receitas, cotadas em dólar, aumentam.
Já as empresas importadoras, como varejistas, companhias aéreas e indústrias de tecnologia, sofrem com um real mais fraco, porque o custo de importação de insumos e produtos sobe, reduzindo suas margens de lucro.
O mesmo ocorre com o fluxo de capital estrangeiro no Brasil: uma valorização do real pode tornar o país menos atrativo para investidores externos, enquanto uma desvalorização da moeda nacional torna os ativos brasileiros mais baratos, estimulando a entrada de capital estrangeiro e valorizando ações.
O câmbio flutuante também tem impactos na renda fixa, principalmente devido à sua ligação com a inflação.
Quando o real se desvaloriza, produtos importados ficam mais caros, pressionando a inflação e podendo levar a um aumento dos juros, o que torna os títulos públicos mais atrativos.
Além disso, investimentos atrelados ao dólar, como fundos cambiais e títulos do Tesouro IPCA, podem se valorizar quando o real perde força, servindo como proteção contra a perda do poder de compra.
Para quem investe no exterior, a variação cambial também é crucial. Se o dólar sobe, os ativos internacionais, como ações americanas, ETFs e REITs, passam a valer mais em reais, aumentando o retorno do investimento. Se o dólar cai, o rendimento pode ser reduzido na conversão para a moeda nacional.
Ou seja, o câmbio flutuante influencia muito todos os tipos de investimentos.
Na Liberta Investimentos, entendemos que a alocação ideal depende da diversificação entre diferentes classes de ativos, o que costuma incluir também diversificação internacional.
Mas a carteira ideal vai depender especificamente do seu perfil e dos seus objetivos de curto, médio e longo prazo.
Quer uma opinião sobre a sua estratégia de investimentos? Nossos assessores estão à disposição para montar uma estratégia personalizada para os seus objetivos.


