“Stanton, quanto maior a taxa, melhor o investimento, certo?”
A resposta é um sonoro “depende”.
Por mais que você não fique impressionado com essa resposta óbvia que qualquer economista daria, eu não tenho outra alternativa – e acredito que você vai concordar comigo quando terminar o artigo.
Porque, assim como somos muito cuidadosos com as “letras miúdas” ao ler contratos de diferentes naturezas, no mercado financeiro precisamos ficar atentos às “taxas majoradas”.
Essas taxas pintam cenários futuros incríveis, mas só valem se tudo ocorrer sem nenhum imprevisto.
Mas qual a saída?
Neste artigo, vou apresentar uma maneira simples de calcular o risco de um imprevisto acontecer, e confio que essa abordagem vai mudar a maneira como você olha para cada título, em especial na renda fixa.
Qual o risco na renda fixa?
Para entendermos essa provocação inicial, é importante alinharmos alguns conceitos.
O que um CRI, CRA, LCI, LCA, Debêntures, NTN-B e outros ativos de renda fixa têm em comum?
Em todos esses investimentos, você empresta recursos para alguém, com a promessa de que receberá de volta o capital inicial acrescido de juros.
O grande risco dessas operações é a possibilidade de quem tomou o seu dinheiro não honrar o pagamento e entrar em falência.
O momento atual da economia brasileira demanda um cuidado especial, porque, como mostra a imagem abaixo, existe uma correlação clara entre Selic alta e o número de pedidos de recuperação judicial.
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O prêmio de risco nas operações de crédito
Conceitualmente, o crédito possui uma lógica simples.
Será cobrada uma taxa de juros mais alta de quem apresenta maior dúvida sobre a capacidade de pagamento.
É o prêmio por correr o risco.
Um exemplo hipotético: cobraríamos juros mais altos do Chaves ou do Tio Patinhas?
É praticamente consenso que o Tio Patinhas nos repagaria com mais facilidade que o Chaves, dada a capacidade financeira de cada um.
Logo, seria como emprestar o montante a CDI+1% para o Tio Patinhas, e CDI+10% para o Chaves.
Os devedores mais “arriscados” e com menor capacidade de pagamento são aqueles que oferecem as taxas mais altas – e que acabam chamando a atenção dos investidores, em especial dos menos experientes.
Como decompor a taxa de juros?
Assim como grande parte dos brasileiros recebe o salário bruto e precisa fazer uma série de deduções para entender quanto sobra no bolso no final do dia, precisamos fazer essa mesma decomposição para investimentos de renda fixa e suas taxas.
No caso do crédito, é importante observar 2 fatores:
- A probabilidade de uma empresa dar calote
- Taxa de recuperação (o percentual recuperado após o calote ocorrer)
Probabilidade de calote
Anualmente, a agência de rating S&P conduz um estudo que revela uma das métricas que precisamos: a probabilidade do calote ocorrer.
O estudo é publicado com os ratings em escala global. Para simplificar, faremos uma aproximação da equivalência entre a escala global e nacional, ou seja: como o Brasil é um BB, todo ativo AAA no mercado brasileiro é um BB internacional.
Taxa de recuperação
Para a outra métrica, chamada de taxa de recuperação (Recovery Value), vamos nos valer de um estudo publicado pelo Banco Mundial, com dados disponibilizados pelo Banco Central do Brasil.
Segundo esse estudo, a taxa de recuperação do crédito no Brasil é estimada em 18,2%, contra a média mundial de 36,9%.
Com todos esses dados em mãos, podemos fazer uma simulação.
Exemplo prático
Vamos tomar como exemplo a dívida de um nicho da Zilor, uma empresa de açúcar e álcool, com código QUAT13, e compará-la com um título do Tesouro Direto de mesmo vencimento (10 anos).
| Ativo | Título Zilor (QUAT13) | Tesouro IPCA |
| Taxa de rentabilidade | IPCA + 7,8% (IPCA +9,5% bruto) | IPCA +7,41% bruto |
| Rating | A (Brasil): equivale a CCC internacional | AAA (Brasil): equivale a BB internacional |
| Probabilidade de calote | 54,79% | 30,70% |
| Recuperação assumida | 36,9% | 36,9% |
| Taxa final corrigida: | IPCA +4,62% | IPCA +4,77% |
Após considerar todos esses fatores, teríamos uma taxa final de IPCA +4,62% para esse investimento.
Para comparar, o Tesouro IPCA com mesmo vencimento, que rende IPCA +7,41% bruto, fica em IPCA +4,77% após fatorar os mesmos riscos (considerando inflação de 5% apenas para efeito de cálculo).
Ou seja: o Tesouro Direto, que parecia render menos, acaba oferecendo 0,15% a mais ao ano acima da inflação quando incorporamos o prêmio de risco da empresa sucroalcooleira.
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O que fica para você, investidor?
A mensagem final que eu gostaria de passar é simples: nem sempre a maior taxa é a melhor escolha – mas ser excessivamente conservador também pode não ser ideal.
A cada decisão, é necessário projetar os riscos envolvidos para se chegar à melhor conclusão.
É exatamente por isso que você precisa contar com alguém que possa auxiliar nessa tomada de decisão, mesmo que pareça simples à primeira vista, porque existem muitas “letras miúdas” que apenas um profissional saberá identificar.
Você precisa saber quando tomar risco e quando existe uma assimetria positiva.
A verdade é que a renda fixa pode ser mais complexa do que parece.
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